domingo, 30 de março de 2014

IML


Saberá ainda
que mantenho teu gosto
conservado na minha garrafa
de carne e osso

sexta-feira, 21 de março de 2014

Tempos

Quem da noite faz palco
da  manhã tormenta
vitimado por horas
sem descanso ao pôr sol

De quem o conforto é um dia já velho e gasto
sorri sim ao pássaro
dê as mãos aos rancores
numa xícara encontra o que possa afoga-los

Na dança morta das coxas brancas
lendo notícias de um mês
respingos de tantos anos
tenha a corda
sem pé na forca
segure o gatilho
não despedace

quarta-feira, 19 de março de 2014

Am Fm e uma garrafa vazia

Teria que pôr os meus pés na mesa
abrir a boca e te deixar cair
dos meus pensamentos faria teu mar
do meu melhor uma ilha no meio do
nada
estou atravessando a noite em ponto
morto
com o som monótono do rádio
ecoando nossa canção

domingo, 16 de março de 2014

Dentes de leoa

Imaginava aquela boca
aqueles dentes brancos mordendo-os
Imaginava aquela crina de anjo na casa dos 30 anos
Imaginava aqueles olhos pequenos protegidos por aço e vidro
e tinha o cheiro que não conseguia me lembrar
Imaginava aquela voz arrastada nos meus ouvidos como pássaros inconvenientes pela manhã
impondo uma vida mesmo que não houvesse tempo
Imaginava aqueles dias que poderia ter ao lado dela sem precisar ficar na dúvida de segurar o gatilho por mais um minuto
Imaginava a casa arrumada com a janta na mesa depois de sentir vontade de matar meio mundo
então eu bebia nos bueiros do meu ócio
nas poças d'águas constantes que desafiavam meus pés
estava sendo vencido por murros bem dados pelo tempo
E imaginava o gosto de terra enquanto ela estaria sorrindo confortavelmente em algum lugar com sol
e imaginava a corda frouxa lentamente me pondo de molho
Só imaginava
morria errado de novo

sexta-feira, 14 de março de 2014

Serra por serra

Em algum tempo vazio
de glórias inertes
se meus ensolarados dias dão descanso
meses chuvosos eu ganho meus calos

Choramingando o destilado sob meu peito
eu poderia dizer que amo
A forca ausente na areia
Eu poderia me manter calado

Sobre inflar o ego
planejar o dia sem ter o seguinte
útero de pedra
com camada de névoa

terça-feira, 11 de março de 2014

Há 2 anos atrás

Nua ante a noite
então te bebi
unhas de gata putrida
sobre o falo desse último
sou marcado com o vazio da montanha
e você dolente na areia fingindo o orgasmo com outro tolo

sexta-feira, 7 de março de 2014

Glória à montanha

quando perder é melhor do que
ganhar
quando orei por desespero pela última vez
os remédios injetados nos feriados
e mamãe chorava
chacota do dia a puta que me disse
eu te amo
o milagre do dia é a chuva não
derrubar
punhais pelas costas
cidade natal
uma passo
gole fosco respingando na barba rala
acompanhando cães
até meia noite fora de casa

quarta-feira, 5 de março de 2014

Sem coroa

abro janela
e quantas vezes não vi esse cinza ser mais deslumbrante do que o mar?
xícaras de sobras para os suicídios matinais com cafeina
escolho uma música aleatória:
Isolamento...
isolamento...
isolamento...
nem cães de rua se dão por convencidos por esse estado
cópula canina ao meio dia
mãos jovens esmolando nas ruas imperiais
sinal da cruz do anônimo pai de família na fila do terminal
estamos num começo
sem sorte para quem vive olhando o chão buscando achar o que nem mesmo sabe se há
para quem já dormiu honesto na escada de Pedro