quarta-feira, 6 de abril de 2016

Do ventre cinza

Na fenda escura
me cobri de pétalas brancas
Forjei na boca
o meu patíbulo
fiz dos meus algozes
provetas
refleti o velho
rouco pari um ditado

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Meio da tarde

Há um pássaro de mal humor
que ali da janela me olha
sem canto
apenas observando a fumaça do cigarro subir
me olha como se percebesse a falta de algo
se destaca no cinza do dia
sendo chumbo derretido
ele quer dizer algo
não há nada mais a se dizer nesse tempo
Recordo os pedaços que caíram
contra a minha vontade
Quando me levantei
o pássaro de mal humor partiu
Café quente pela goela
e mais algumas horas

domingo, 20 de dezembro de 2015

Vésperas

Apunhalado deus é por mim
com a mão enferrujada
brindando a esperança quando tudo
é desespero

deleites nas manhãs 
sob as palavras do livro velho

É meu cinza que sobretudo alcança notoriedade mais
do que a puta virgem

Dei-me o mar para afogar as benfeitorias expostas

Dei-me mais a montanha com a corda em riste pronto para pular e poder ver o paraíso

oração é o primeiro gole
pecado é olhar a chance de acertar

Ponha-me em manjedouras de cada sarjeta

Rogue

Acabemos

Prego eterno

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Bloco de notas de fim de ano

Por mais que eu tente nunca será suficiente

Por menos que eu ignore será sempre um porre como um cano de espingarda engatilhado contra a própria cabeça

Sábado de manhã e chove em algum ponto da cidade numa cena dessas

Há quem tem fome e busque sacia-la

Há quem apenas proste-se sob os outros e quer arrancar seu suor no fim do dia

Café para recomeçar um dia em petrópolis

Cafés a vida toda

sábado, 31 de outubro de 2015

Uns dias

Há um poço no meu sonho
uma moeda no bolso da minha sorte
deslumbro os mortos sorrindo
e eu tomo meu caminho dentro do próximo ônibus

quando a montanha nos aborta antes mesmo de sermos reis
da nossa desgraça e miséria
e o velho de antes no banco da praça pigarreando futuro
tão você e não eu

juízes do pesadelo
da salvação que o terror interior não esconde
risquei um ponto no céu
pendurei você lá

domingo, 20 de setembro de 2015

Meu dia

Meu dia foi lindo como um dia de caridade num hospício

Um show com a barriga vazia vendo as crianças famintas de batom tomando lugar de cristo

Carimbado com a marca da besta eu sorri quando a lágrima que escorria era só mais uma inundação

A estética do sofrimento que se disfarça com um punhado de notas no quinto dia útil

Foi meu dia como manhãs orvalhadas do meu túmulo natal

Resistência queimada e água salgada sob a pele negra lembrando que foi escrava

O meu dia foi tão lindo quanto um dia de caridade num hospício

O chão que não é derrota enquanto os pés tateam livres outra moda

Outra derrota assistida em algum tubo na esquina

Brindo os arranhas céus que não chegam nem perto dos pássaros

Meu dia foi tão bonito como um dia de caridade num hospício

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Alverca

Seus seios crueis
que são minha luz
no fim do túnel
no quarto iluminado
onde latejo a imensidão branca
espero mais um minuto
num dia qualquer
vocifero contra quilômetros
e quando são meses já
eu ainda tenho um gole para te oferecer